Ficamos alojados na base de estudos da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul na região do Passo do Lontra, na beira do Rio Miranda. Fomos em Julho, mês em que as águas estão baixando pelo período seco, deixando à mostra as palafitas que sustentam as construções na fase de cheia dos rios.

Logo na primeira noite notamos que os cães do local não desciam das palafitas depois que escurecia, o perigo de ser caçado por uma onça é real. Fomos andar por perto do alojamento e com uma lanterna boa, vimos brilhas centenas de olhos de jacarés na outra margem do rio, enquanto um cervo passou calmamente atrás da gente.

Todos os dias pouco antes do amanhecer o nosso despertador era, primeiro, o urro dos Bugios, seguido de incontáveis cantos de pássaros que viviam amontoados nas árvores ao redor da base.

O foco da visita era ajudar uma amiga, a Grazi, na parte prática de sua pesquisa de doutorado com as populações de ariranhas naquela região. Ela monitorava algumas famílias atrás de tocas nos barrancos expostos pelo baixo nível do rio, procurando entender o comportamento delas e conseguir bolar uma estratégia de captura segura (para humanos e ariranhas). Até aquele momento, ninguém havia conseguido capturar uma ariranha e devovê-la viva, sem acidente. O objetivo era coletar material biológico para estudar as doenças presentes naquela população.

O nome Ariranha vem do tupi-guarani e quer dizer onça d´água, o que realmente pudemos vivenciar pela forma agressiva que elas reagem com a aproximação do barco. As ariranhas estão ameaçadas de extinção e a contaminação dos rios é uma das principais ameaças. Possuem em média 1,5m, são animais sociais, vivem em famílias que defendem ativamente seu território – que pode ser de até 30km de rio por grupo – com muita vocalização e tentativas de ataque. Elas possuem um local de eliminação, a latrina, a qual possui um cheiro tão forte que usávamos para encontrar a toca por perto.

Estar em meio a uma natureza tão intacta e selvagem é pouco comum para as pessoas que vivem nas grandes cidades, que ficam cada vez mais desconectadas e não tem ideia de como somos pequenos e indefesos no meio desse ambiente. Estar na natureza é uma lição de humildade.

A noite tinha o céu mais estrelado que já vimos (e olha que é algo que sempre reparamos), e saíamos de carro com lanterna para procurar por animais noturnos. Vimos gato do mato pequeno, tamanduá bandeira, tuiuiú e mais incontáveis espécies de aves. O que ficou faltando foi a onça, só achamos a pegada fresca. Ainda voltaremos para encontrá-la!

One thought on “Como foi ficar isolado no Pantanal

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